MARCELO MELLO. (2004).

Material didático para violão e guitarra -- Pasta A: Blues.

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BLUES

A importância e a profundidade do blues como gênero musical têm sido aumentada gradativamente com o passar das décadas, e como resultado muito se tem escrito e disponibilizado a respeito de blues. Mais que isso, as particularidade musicais de mestres como Robert Johnson, Sonny Boy Williamson ou Little Walter dificilmente podem ser resumidas a poucas palavras. A apresentação que se segue agora, portanto, pretende ser bem mais humilde que um panorama completo do blues; e creio que pode funcionar muito melhor como um “mapa” geral, de onde podemos nos orientar principalmente para falar sobre a gaita no blues. Muito mais informações poderão ser conseguidas, por exemplo, nos livros e nos sites listados na Bibliografia.

 

Definição

Gênero musical surgido a partir do fim do séc. XIX, fruto da cultura negra semi-escravizada e discriminada do sul dos Estados Unidos. Além de se desenvolver e se transformar no decorrer do séc. XX, o blues deu origem entre outros ao jazz e ao rock.

“... o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência , a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. O blues é a emoção pessoal do indivíduo que encontra na música um veículo para se expressar” (Paul Oliver apud Muggiati 1995 - ver Bibliografia).

 

Origens - Legado cultural africano

Gravação: Henry Hatcliff - Louisiana / Bakari-Badj - Song from Senegal (trechos) - 745K
(Roots of the blues - Biblioteca do Congresso Nacional EUA - anos 1940)
Separados por mais de 1000 Km de mar, os dois cantores compartilham das mesmas inflexões vocais, da mesma forma melódica, do mesmo senso de repetição etc.

  • Escala pentatônica, dividindo a oitava em cinco intervalos iguais, com afinação diferente da tradição européia (Zurcher 1996 - ver Bibliografia)

  • Adaptação da música africana (divisão de uma oitava em cinco partes iguais) à afinação européia tradicional (tom/semitom) => blue notes, notas permutáveis entre si dentro da música. As escalas tonais maiores e menores produzem notas ambíguas de acordo com a afinação africana; no blues, estas notas são consideradas equivalentes, e passíveis de serem tocadas ora uma, ora outra. A tabela abaixo mostra as possíveis relações de equivalência entre a afinação européia e a escala pentatônica africana, sublinhando as blue notes (graus III, VII) e colocando entre parêntesis os graus sem equivalente na escala pentatônica (II, VI):

    • Escala européia:

      SOL

      sol#

      LA

      la#

      SI

      DO

      do#

      RE

      re#

      MI

      fa

      FA#

      SOL

      I

       

      II

       

      III

      IV

       

      V

       

      VI

       

      VII

      I

      Escala pentatônica africana:

      1

      2

      3

      4

      5

      (1)

      Blue notes:

      SOL

       

      (la)

      SI

      SI

      DO

      DO#

      RE

       

      (mi)

      FA

      FA#

      SOL

      I

       

      (II)

      III

      III

      IV

       

      V

       

      (VI)

      VII

      VII

      I

      4

       

      Escalas pentatônicas fazem parte da tradição de povos os mais diversificados, como a China, o folclore húngaro ou dos índios norte-americanos. Tradicionalmente ela é produzida numa adaptação para a escala tonal maior simplesmente cortando alguns graus. Surgem assim a escala pentatônica maior:

      SOL

       

      LA

       

      SI

         

      RE

       

      MI

         

      SOL

      I

       

      II

       

      III

         

      V

       

      VI

         

      I

       

      e a escala pentatônica menor:

      SOL

         

      SI

       

      DO

       

      RE

         

      FA

       

      SOL

      I

         

      III

       

      IV

       

      V

         

      VII

         

       

      Estes dois tipos de escala podem ser adaptados a uma escala com blue notes:

      SOL

       

      LA

       

      SI

         

      RE

       

      MI

         

      SOL

      SOL

       

      (la)

      SI

      SI

      DO

      DO#

      RE

       

      (mi)

      FA

      FA#

      SOL

      I

       

      (II)

      III

      III

      IV

       

      V

       

      (VI)

      VII

      VII

      I

      SOL

         

      SI

       

      DO

       

      RE

         

      FA

       

      SOL

      SOL

       

      (la)

      SI

      SI

      DO

      DO#

      RE

       

      (mi)

      FA

      FA#

      SOL

      I

       

      (II)

      III

      III

      IV

       

      V

       

      (VI)

      VII

      VII

      I

       

      As blues notes, em resumo então, ocorrem da bemolização (tocando um semitom abaixo do normal) dos graus III e VII da escala tonal maior.

       

      Origens: precursores sociais e étnicos

      • proibição de instrumentos de sopro ou percussão entre os escravos;

      • hollers: grito cantado, típico da comunidade negra sulina (vendedores ambulantes, anúncio das partidas e chegadas de trem, medicin shows etc.);

      • work songs: músicas de trabalho da época da escravidão, da época da Reconstrução (após a Guerra Civil americana) ou de penitenciárias de trabalhos forçados;

      Gravação: Leroy Miller e prisioneiros de trabalhos forçados - Berta, Berta (trecho) - 437K
      (Roots of the blues - Biblioteca do Congresso Nacional EUA - anos 1940)
      Gravado em uma penitenciária, reproduzindo as sessões de canto durante trabalhos forçados.

    • spirituals: músicas religiosas cristãs, baseadas na música tradicional européia (influenciaram os acordes e as funções harmônicas);

    • Gravação: Rev. Crenshaw, New Brown's Chapel - Memphis, Tenessee (trecho) - 750K
      (Roots of the blues - Biblioteca do Congresso Nacional EUA - anos 1940)
      Gravado durante culto evangélico. O culto é quase um show individual do pregador -- e note-se a semelhança com a forma de responsório, tradicional de muitas religiões, de intercalação entre o pregador e o público.

    • songsters: papel social similar aos menestréis da Idade Média: cantores-viajantes com repertório diversificado (baladas, canções épicas etc.). Contrastavam com músicos que não cantavam, os musicianers. Ex. Leadbelly;

    • instrumentos: banjo, violão, gaita, jug (gargalo de galão de bebida soprado), washboard (tábua de lavar roupa percutida e raspada) etc.

         

      • Urbanização (a partir de 1915)

        • Blues singers: o principal fator de diferença para com seus precursores, os songsters, é o repertório exclusivamente formado por blues, por composições pessoais e originais. Caráter passional, individualista e expressivo, nas letras e nos cantores: “Blindies” - Blind Boy Fuller, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Johnson etc. -, Son House, Charley Patton. Exemplos tardios: Robert Johnson, John Lee Hooker.
          Na gaita: Sonny Terry .

        • escala: uso de escalas pentatônicas e blues notes. Cada instrumento terá técnicas específicas desenvolvidas para conseguir emitir as blue notes:

        • slide: no violão, o deslizar de um objeto sobre as cordas (faca, ossos, barras de ferro, gargalos de garrafa - bottlenecks), de modo a produzir notas fora da afinação normal do instrumento;

        Gravação: John Dudley - Po'boy blues (trecho) - 524K
        (Roots of the blues - Biblioteca do Congresso Nacional EUA - anos 1940)
        Nesta gravação, o efeito de slide  é conseguido com uma navalha deslizando entre as cordas do violão.

        • bends: no violão, o “puxar” das cordas no braço do instrumento depois de tocadas; na gaita, o desenvolvimento das técnicas de bend;

        • harmonia: seqüência de 12 compassos:

          • forma: cada uma das seqüências harmônicas equivale a uma estrofe dos versos da letra, que é composta de acordo um dos dois esquemas ao lado:

          - 3 versos (2o repetição do 1o) => fast changes
          (com o acorde do IV grau em [*] );

          - refrão nos 8 compassos finais => slow changes
          (sem o acorde do IV grau em [*] )

           

          • letras: amor, abandono, solidão, sexo / humor negro, auto-sátira / discriminação e exploração da população negra / prisão, crimes, vícios, pacto com o demônio, superstições / assuntos do dia-a-dia

          All your friends forsake you,

          Trouble overtakes you

          And your good man turns you down

          Evil talk about you

          Everybody doubt you

          And your friends can't be found

          Todos seus amigos te abandonam

          Problemas te sobrecarregam

          E o seu homem te deixou

          Falam mal de você

          Todos duvidam de você

          E seus amigos não podem ser encontrados

          Bessie Smith, Bleeding Hearted Blues

          Now when the moon creeps over the mountain,

          I'll be on my way

          Now I'm gonna walk this old highway,

          Until the break of day

          Quando a lua surgir por detrás das montanhas

          Eu estarei no meu caminho

          Agora vou andar por esta velha estrada

          Até o raiar do dia

          Big Bill Broonzy, Key to the Highway

           

          She leaves out in the evening

          And don’t come home ´till break of dawn

          I don’t know were she get this money

          But I know she wouldn’t do me wrong

          Ela sai ao anoitecer

          E não volta antes do raiar do dia

          Eu não sei onde ela consegue este dinheiro

          Mas eu sei que ela não me faz mal algum

          Blues Etílicos, Real Good Woman

           

          • Primeiras publicações: Antes da popularização das gravações, a principal forma de popularização de novas música era a publicação de partituras, e por isso é importante apontar a primeira obra musical publicada que levou o nome de blues: Memphis Blues (1912). Outra música importante na época de aparição do blues como gênero estabelecido foi Saint Louis Blues (1913); Pela composição detas múisicas, W. C. Handy sempre se rogou o título de “o pai do blues”.

          • Primeira gravação: Crazy Blues (Mama Smith - 1920)

          • Blues urbano clássico: Race records - mercado fonográfico específico para a população negra. Aproximação com o jazz: nos instrumentos (piano, clarinete, trompete etc), nos formatos (Boogie-woogie, ragtime etc.); Imperatrizes do Blues: Bessie Smith, Ma Rainey, Ida Cox, Memphis Minnie, Alberta Hunter .

          • Migração em massa para o Norte (Chicago) após a Primeira Guerra Mundial. Urbanização e modernização dos instrumentos: guitarra elétrica, bandas, amplificação: Big Bill Broonzy, T-Bone Walker, Lonnie Johnson, Leroy Carr, Tampa Red. Na gaita: Sonny Boy Williamson.

          Bessie Smith

          Robert Johnson

          Sonny Boy Williamson

           

          Gravação: Robert Johnson - Cross road blues (trecho) - 411K

           

          Após a Segunda Guerra Mundial

          • Ênfase na performance de palco: som mais pesado e dançante: Muddy Waters, Howling Wolf, Elmore James, B. B. King, Willie Dixon, Otis Spann, Jimmie Reed.
            Na gaita: Big Walter Horton, James Cotton, Little Walter .

          Little Walter

          Howling Wolf

          James Cotton

          Gravação: Howling Wolf - Killing floor (trecho) - 574K 
          Gravação: 
          Muddy Waters - Hoochie coochie man (trecho) - 461K

           

          • Rock’n’roll: final dos anos 50; introdução da música negra (blues, Rythm`n`blues) no mercado jovem branco, cantada por cantores brancos: Elvis Presley, Bud Holly, Jerry Lee Lewis etc.

          • De 1950 até hoje:

          - influência no rock americano e inglês, e em seu desenvolvimento artístico e comercial até se transformar no ícone da música popular de hoje (Rolling Stones, Led Zeppelin, Eric Clapton, Jimi Hendrix etc.)
          - continuação da tradição blues: Buddy Guy, Robert Cray, Steve Ray Vaughan etc.
          - figuras “hibridas”, que se encaixam simultaneamente nos rótuloas das vertentes acima: Chuck Berry, Little Richards, John Mayall, Janis Joplin, Johny Winters, Allman Brothers, Jeff Healey etc.
          Na gaita: Junior Wells, Paul Butterfield, Charlie Musselwhite, Sugar Blue.

          Junior Wells

          Paul Butterfield

          Steve Ray Vaughan

          Gravação: Paul Butterfield - Walking blues (trecho) - 380K
          Gravação: Steve Ray Vaughan - Pride and joy (trecho) - 518K

           

          “Se a música pop de hoje possui um nível musical e literário mais elevado, assim como maior coerência e autenticidade de expressão do que a música popular anterior a 1950, isso se deve à infiltração do blues e da música negra em sua linguagem. A música negra é em geral mais realista, mais ligada aos problemas sociais e ao dia a dia da vida de cada um.” (Joachim Berendt apud Muggiati 1995 - ver Bibliografia).

           

          Improvisos em blues

          Como se pode apreender por sua história e desenvolvimento, o blues não pode ser resumido a um simples gênero musical. Ele sempre esteve envolvido com expressão de sentimentos profundos e patéticos, e se envolver com sua música não pode estar separada de seu envolvimento emocional. Tocar blues significa antes de tudo envolver-se profundamente com o som de seu instrumento e com a mensagem de sua música, e procurar um "som" específico para seu instrumento e sua música, mais que desenvolver uma determinada técnica.

          Quanto à frase melódica, deve-se ter em mente em primeiro lugar a seqüência de acordes, que no blues é padrão (a seqüência de 12 compassos - veja capítulo "Urbanização"). O blues é música essencialmente improvisatória, onde a repetição "obstinada" dos 12 compassos permite um alto nível de previsibilidade das estruturas musicais, e (por isso mesmo) uma grande liberdade de expressão dentro delas. Assim, as notas da melodia de improviso devem estar relacionadas com as notas dos acordes de cada momento da seqüência; isso especialmente para os finais de frases melódicas.

          Dentro da seqüência, em termos de organização da frase melódica, o mais normal seria repetir a construção "dois-versos-iguais-e-um-diferente" (fast changes), comum à maioria do blues. Nesse caso, a produção de frases melódicas seria como três grandes arcos, que partem das notas dos acordes de cada parte da seqüência para criar uma melodia; o segundo arco seria uma cópia ou pelo menos intimamente relacionado com o primeiro, repetindo padrões usados pelo primeiro (graus da escala, intervalos, esquemas rítmicos etc.) . Exemplo diagramático de melodias improvisadas em sol maior, já incorporando um pequeno trecho melódico no turnaround final, preparando a repetição (compasso 12 - ver Guitar Player março 2000).

           

          Bibliografia

          MUGGIATI, Roberto. Blues - da lama à fama. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

          OLIVER, Paul. “Blues”, “Songster”. IN The New Grove Dictionary of Music and Musicians. Londres: MacMillan Press, 1984.

          Harry’s Blues Lyrics Online. Internet http://blueslyrics.tripod.com.

          Mississipi Writers and Musicians. Internet http://www.shs.starkville.k12.ms.us/mswm/MSWritersAndMusicians/ 

          The Blue Flame Cafe--Encyclopedia of the Blues. Internet http://www.blueflamecafe.com/

          Sounds of the South Home. Internet http://www.ibiblio.org/sostudies/music/delta.htm.

          Birthplaces of Mississippi Blues Artists. Internet http://bluesmaps.com/deltabirths.htm

          Blues Sponto. Internet http://www.bluesponto.com.br/  (Site em português).

          Miller Time Blues Festival. Internet http://www.millertimeblues.com/  (Site em português).

          Obs: A maioria dos links não funciona mais. Consulte página sobre blues na seção de links.

           

          (DOCUMENTO EM CONSTRUÇÃO)

           

           

           

           

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